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Poluição nos oceanos já atinge até mar profundo; é o que mostra um estudo do Instituto Oceanográfico da USP


Um estudo do Instituto Oceanográfico da USP investigou a presença de microplásticos e poluentes persistentes na bacia de Santos, litoral de São Paulo. Através da análise de sedimentos de peixes e invertebrados que vivem entre 400 e 1.500 metros de profundidade, foram identificados a presença de fibras plásticas e poluentes orgânicos.

Gabriel Stefanelli Silva, um dos pesquisadores responsáveis pelo estudo, explica que o mar profundo ainda é pouco explorado devido à sua complexidade. Ele conta que os primeiros registros de lixo em mar profundo são de 2013 e que ainda existe pouca pesquisa nessa área por conta de questões envolvendo financiamento e tecnologia.

Como foi feita a análise

As amostras foram coletadas em expedições na Bacia de Santos, com ajuda do navio do Instituto Oceanográfico, o Alfa Cruzes. Os pesquisadores utilizaram um equipamento capaz de retirar porções intactas do sedimento marinho e redes de arrasto para capturar peixes e invertebrados.

Em laboratório, analisaram o conteúdo digestivo dos animais e os sedimentos em busca de microplásticos e poluentes orgânicos persistentes, compostos químicos que podem permanecer no ambiente por décadas.

Lixo no mar profundo

Stefanelli explica que é muito difícil saber exatamente de onde esse material está vindo, porque eles podem chegar ao oceano profundo por diferentes caminhos. O lixo das cidades é bastante responsável pela presença desses materiais no fundo do mar. Os resíduos, intencionalmente ou não, acabam indo parar nos rios, que em sua maioria desaguam no mar.

Além disso, os microplásticos, por serem muito leves, também acabam sendo levados pelo ar. “Uma corrente de vento pode levar esse material por grandes distâncias, inclusive, na atmosfera. Mas também tem a questão do aporte de material que já está no oceano. Então, em embarcações, por exemplo, em plataformas offshore, também geram lixo, também geram esse resíduo que já está ali no ambiente.”

Resultados da pesquisa

Durante a entrevista, o pesquisador explicou que existem dois tipos de microplásticos. Os chamados microplásticos primários são produzidos intencionalmente em tamanho reduzido para servir de matéria-prima na fabricação de outros produtos plásticos, como os pellets utilizados pela indústria.

Já os microplásticos secundários surgem da degradação de objetos plásticos maiores, que se fragmentam ao longo do tempo pela ação do sol, das correntes e do desgaste ambiental.

Segundo o estudo, os materiais encontrados na Bacia de Santos eram principalmente fibras plásticas classificadas como microplásticos secundários, possivelmente originadas da decomposição de resíduos descartados no ambiente.

“Nós estudamos dois tipos de poluentes orgânicos persistentes, que são retardantes de chamas e fluidos isolantes, que são produtos que são nocivos à saúde humana, eles são proibidos de ser comercializados no Brasil há mais de 20 anos, porque o Brasil é signatário da Convenção de Estocolmo, que é um acordo global que proíbe a produção e comercialização desses produtos. Só que, como o próprio nome já diz, os poluentes orgânicos persistentes, ou POPs, persistem no ambiente, demoram muito para degradar. A gente encontrou poluentes orgânicos persistentes que ainda estão no ambiente e que continuam sendo uma ameaça à saúde tanto nossa quanto dos organismos que estão lá embaixo”, detalha o pesquisador.

Espécies afetadas

Os pepinos do mar, animais do mesmo grupo das estrelas do mar, foram os mais afetados pelos microplásticos. Segundo Stefanelli, eles possuem contato direto com o sedimento do fundo do oceano e se alimentam dele para extrair matéria orgânica.

Nesse processo, acabam ingerindo involuntariamente fibras plásticas misturadas ao sedimento. “Eles são um organismo muito interessante para estudar a presença desse tipo de contaminante no fundo do mar, porque são pequenos repositórios de sedimento. Eles são praticamente transparentes quando sobem para a superfície e têm um intestino que é totalmente completo, cheio de sedimento. Então é um pequeno testemunho do que está lá embaixo.”

Além dos invertebrados, os pesquisadores analisaram peixes de profundidade para investigar a presença de poluentes orgânicos persistentes. Os compostos foram identificados nos tecidos dos animais e também nos sedimentos marinhos.

Importância do estudo

A principal contribuição do estudo é estabelecer um panorama inicial da contaminação por microplásticos e poluentes persistentes em uma região ainda pouco explorada do oceano profundo brasileiro.

Embora os resultados sejam preocupantes, o pesquisador afirma que eles não chegam a ser surpreendentes, já que partículas plásticas vêm sendo encontradas em praticamente todos os ambientes do planeta. Segundo ele, compreender a extensão dessa poluição é fundamental para orientar ações de monitoramento e subsidiar políticas públicas voltadas à sua redução.

A próxima etapa das pesquisas deve ampliar a análise para outras espécies, diferentes níveis da coluna d’água e novos pontos da costa brasileira, com o objetivo de entender melhor como esses contaminantes circulam pelos ecossistemas marinhos e quais impactos podem causar ao longo da cadeia alimentar.

Fonte: Jornaldausp/por Talita de Paula Souza
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